Entry: para ajuda prima F1 26.4.12



quantas horas demora o olho doente a abrir-se por completo? dedico-me a essa tarefa desde que acordo, de manhã, e reparo que só está esplendoroso à noite, quando, por falta de companhia e de actividade, já são horas de me deitar e dormir. a televisão tem o aspecto de um musgo subaquático, está ali, permanece ali, com pó e uns bibelots por cima, bonecos de porcelana - não posso deixar de referir a televisão, por mais que me magoe profundamente lembrar da quantidade inumerável de vezes em que comecei ou acabei por dizer "a televisão". a televisão tem o olho sempre só meio aberto, nunca dorme, não me interessa, às vezes durmo em frente à televisão porque, com os dias, com os meses, ao fim e ao cabo com os anos, ganha-se um torpor, ganha-se um incómodo constante que a televisão, apesar de tudo, vai disfarçando por momentos, connosco sentados de lado, no sofá, a entrar pela barriga da noite, com a sala cheia de fumo do tabaco e a televisão, a porra da televisão em vómitos pequenos, contínuos, a iluminar as paredes, a provocar sombras, jogos de luzes, um olho meio aberto mas muito colorido, com sangue e as vidas dos outros todas muito rápidas e muito perfeitas, altamente imitáveis, lá dentro, a acontecer. a televisão é uma baba no braço do sofá, com a cabeça a doer e o corpo a ir mudando de posição conforme as horas, os meses, os dias, as décadas. o olho meio aberto e os nossos olhos meio abertos, sempre este sono, esta baba, desde que há televisão que há sono mas não se dorme. neste caso a televisão tem o ar de um musgo subaquático, de uma planta rente ao chão do mar, onde é tudo lento por causa da água.
sou um feto em frente à televisão de olhos meio abertos, dói-me a cabeça num dos lados, tenho de sair daqui, dormir, guinchar como um pássaro nocturno, reaprender o meu nome.

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