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estou deitada na cama, estendida, sinto-me nua, e há uma mulher no canto do quarto, sentada no chão, nua, com os joelhos na boca e os braços a segurar as pernas, cada mão apoiada no cotovelo oposto, é uma imagem inversa de mim mesma, ali, quieta, os cabelos compridos a cobrir o rosto mas os olhos algures luzindo sob a contagem: oito, sete, se- seis de repente apercebo-me de que estamos a ver o gabinete do dr. caligari, obviamente!, projectado na parede sobre essa mulher sentada no chão, na aresta do quarto, e um homem também nu ao meu lado mexe-me na barriga e fala de solilóquios, pergunta-me coisas, metáforas, anáforas, anástrofes... que idiota!, que cansaço de boca, movendo-se, perguntando-me palavras... reticências, olho para sob a projecção do gabinete do dr. caligari, ou não fôssemos nós intelectuais, fechados num quarto a ver filmes intelectuais, surrealistas, marcantes, legados históricos, et caetera; ponto e vírgula: olho para a mulher sob as luzes, o cabelo e os olhos sob o cabelo, pleonasmo meu, certamente, esta coisa dos olhos, da contagem: seis, cinco, qua- olho essa mulher enquanto o homem (o meu marido?) abre e fecha a boca mecânica, digo, mecanicamente (o que está errado comigo hoje? é a menstruação que se avizinha, os seios inchados, as dores de barriga, fodo e gosto menos mas finjo que gosto mais, depois, no fim, o meu marido foge para a casa de banho e lava a pila enquanto eu fumo um cigarro à janela, quando volta bate-me nas nádegas e beija-me o pescoço, cai cinza lá para fora, para cima da cabeça dos pássaros e para a roupa dos vizinhos de baixo, que se lixem todos!), olho para ela, nua, sob o gabinete do dr. caligari, intelectual, intermitente, o som antigo de um projector, olho para a mulher sentada, quieta, nua, parada, e sinto o seu cheiro daqui, sinto-o se fechar os olhos e me esquecer das palavras aprendidas deste homem nu que me mexe na barriga, com uma perna (a direita) pendente para fora da cama, eu estendida, deitada a amadurecer aqui, consigo ver a cona da outra mulher, sentada no chão, o meu disfemismo assusta-me, talvez este homem a tenha fodido, e a mim? o dr. caligari a apresentar cartões, mexem-me na barriga e conto nuvens para trás, começa-se do dez, dez, nove com licença, íamos no cinco, afinal! cinco nuvens, quatro nuvens, três nuvens, duas nuvens, uma nuvem tudo inflamado de sangue, nuvens coloridas, mexem-me na barriga, sinto o cheiro de cona, de sexo, sou um animal a saltar de nuvem em nuvem, os pássaros entram pela janela (nem me tinha apercebido de que o quarto tinha janelas, não tem, pois não?), o disfemismo da cona e a minha boca, a minha língua, a pila deste homem dentro e fora de mim e um suspiro, uma nuvem, o dr. caligari a sorrir-me cheiros na face, mesmo de frente, alguém desliga o volume e em câmara lenta a minha língua na cona, que antítese, credo!, não beijaria o dr. caligari nem este homem porque não cheiram ao mesmo que a mulher, e não sei que mal lhe fiz, para estar agora recolhida no canto do quarto, sem ninguém que lhe mexa na barriga enquanto fala de figuras de estilo. ninguém calou o projector, fecho os olhos e conto para trás: quatro, três, do- dois, um, zero e é o princípio de tudo. |
| aquelabruxa July 17, 2009 11:44 PM PDT os teus textos parecem-me descrições de sonhos. muitos deles. | ||
| mortir July 10, 2009 11:42 PM PDT Já há algum tempo que não passava por aqui e estou fascinado com a qualidade do que tens vindo aqui a escrever. Não que precise de te congratular, mas de qualquer forma, parabéns. um abraço. | ||
| Sandra July 10, 2009 05:50 PM PDT eu ainda não tinha lido este, está fantástico! :) | ||
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