Entry: o homem que se transformou num pássaro 7.7.09



Eram cinco da manhã e sempre e só apenas o nó da gravata no pescoço, por mais que o alargasse. E a camisa por fora das calças, e os sapatos caídos ao lado da cama, e o cinto a magoar, ainda apertado, os dedos a procurar a fivela, a encontrar, o polegar e o indicador esquerdos a segurar a fivela e o polegar direito a puxar aquele ferro que atravessa os buracos e de que, por falta de dicionário, não sabia o nome, a soltar-se do cinto, por fim, as calças largas, agora e a barriga a respirar em golfos, uma montanha, ora vejo os pés, ora não os vejo, no topo, o sitio onde sei ser o umbigo, embora, como não seja um umbigo saliente, não o veja, protuberante, um marco de pedra no cimo de um monte dançante. O tecto gravitava em torno do nariz e dos contornos escuros do rosto, ou talvez fosse do álcool e das drogas, os móveis tocavam-me nas pernas e nos braços, as gavetas arrumavam as meias e mordiam-me os dedos dos pés nesse processo, tudo estava tão latejante e doía tanto, deus! Às cinco da manhã revolto-me contra o Kafka e contra o Pessoa por terem escrito tudo aquilo que eu queria ter escrito, por não fazer mais, que imitá-los, que recriá-los nas minhas palavras, que significá-los incessantemente. E queria tornar-me num outro animal, amanhã de manhã encontrariam penas no lugar do meu corpo e eu estaria algures sobre o mar, com os olhos aquáticos, com o vento e os braços abertos cheios de ossos ocos e leves, cobertos de carne e penas e pele, entre. E ia a pensar naquele poema do Eugénio de Andrade, o Adeus, e a pensar "porra, é mesmo isto que faz sentido!", ou aqueloutro, do José Gomes Ferreira, aquele que começa "Devia morrer-se de outra maneira"... e na minha condição de ave não interessava mais nada disto, porque, não me preocupando com escrever, não teria nunca de carregar o fardo da inutilidade e da imitação, o meu único propósito seria voar, com os olhos e as asas, silenciosamente, em direcção a lugar nenhum, à espera do cansaço e do fulgor do sol sobre as costas, a empurrar-me para baixo, para o mar a gravitar o nariz e os contornos do rosto, assim escuros, nem sequer o nariz, só uma mancha, se me fixar nele fico estrábico (como é que os pássaros podem ficar o seu próprio nariz, com os olhos no lados da cabeça?), cair no oceano, enfim, e tornar-me numa outra coisa, as penas à superfície e o meu corpo lá debaixo, a desfazer-se, como naquela história do Carlo Collodi, o meu corpo de ave a desfazer-se e os olhos lentamente em direcção à superfície; debaixo do meu corpo de ave havia um outro, era um corpo de bardo, um corpo de Hölderlin, incapaz de respirar sob as ondas, nesse estado e, portanto, destinado a uma morte - dizem - dolorosa, cheia de esgares e contorções violentas. Debaixo de água tudo acontece a uma velocidade muito reduzida e, por isso mesmo, levo muitos séculos até morrer.
Em casa, são seis horas e o nó da gravata no pescoço, meu deus!, as minhas mãos podem sentir as revelações da insónia... se eu me transformasse numa ave, estaria, provavelmente, a imitar o texto de alguém.

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