exa 01 by Ed




exa 02


Set Fire to Flames - Fukt Perkusiv/Something About Bad Drugs, Schizophrenics and Grain Silos

(todas as imagens neste blog são da autoria de Edgar Libório, usadas com permissão)

   

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song of my typewriter:

the best way to think is not at all-
my banjo screams in the brush
like a trapped rabbit (do rabbits
scream? never mind: this is an
alcoholic dream);
machine guns, I say,
the altarboys,
the wet nurses,
the fat newsboys,
rubber-lipped delegates
of the precious life;
my banjo screams
sing
sing through the darkened dream,
green grow green,
take gut:
death, at last,
is no headache.

Charles Bukowski, The Days Run Away Like Wild Horses Over The Hills, Ecco/HarperCollins, 1969



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3.7.16
Estêvão
hás-de cá vir

Posted at 01:05 am by Cássio Almirante
fala  

 
23.1.16
arrastão
cê cedilhado onde as mãos procuram a chave do sótão
às escuras no interior
das algibeiras

Posted at 12:55 pm by Cássio Almirante
fala  

 
24.11.14
sótão
pecúnio

Posted at 02:47 am by Cássio Almirante
fala  

 
25.9.13
não
estêvão

Posted at 10:40 pm by Cássio Almirante
marcas (2)  

 
19.7.12
the sky is falling like a sock of cocaine
ter saudades, ter ciúmes, ter vontade, ter desejo, ter um bicho semelhante a um deus egípcio, meio homem, meio animal, uma quimera, uma esfinge, uma vírgula, dois pontos, ter fome, ter sede, não querer morrer, ter um texto em inglês para ler, para gravar, estar a criar raízes, fundações no século vinte e um, envelhecer no século vinte e um mas ter vindo de outro sítio.

Posted at 08:42 pm by Cássio Almirante
fala  

 
7.7.12
com carinho, Deof Salim
que fique claro, pois, que dormir não é igual a música das esferas. que um abraço não é como um papo-seco que se partilha quando se tem fome. que um beijo não é uma poesia escura, escondida, e muito menos uma poesia de luzes e de lã em novelo.
é o sangue e o sangue por detrás de tudo isto nem sequer é bonito como o vemos nos filmes. é um rio de fins do mundo, com dentes de gato e restos de cabelo, a descer muito devagar por um ralo abaixo.

Posted at 04:30 am by Cássio Almirante
marca (1)  

 
6.7.12
eis plana são
sabes,
vou reduzindo o tamanho dos textos (que insistes em chamar de "poemas") porque a idade não passa de um globo e conforme o atravesso vou perdendo coisas que devia dizer.
aprende-se e desaprende-se o amor. mas é de forma mais clara e perceptível a língua que incha e enche a boca com nada. com pus, talvez. enche muito a boca, quando incha. e a linguagem também não serve quando a língua se desocupa da sua função de língua, de órgão que comunica, que molda os sons, os fonemas, as palavras. a minha língua, em particular, foi-se esvaziando da linguagem, foi-se especializando em beijos, em lágrimas, em martelar as paredes da boca quando ouve música. perdeu a anterior capacidade de falar de melros, de dominar as imagens, a retórica, a metáfora, a fina ironia, o sub-reptício.
num texto pequeno ainda posso comunicar alguidares de barro e as mãos da minha avó lá dentro a aproveitar a farinha, o fermento, a água, nas tardes de um tempo fechado em vácuo, com os cães a ladrar no quintal e os pássaros a serem pássaros no céu e nos beirais e nas copas nuas das árvores. mas depois de dizer isso não tenho mais nada para dizer. volto a ter de enrolar a língua, de brincar com a língua contra o palato, contra os dentes, contra o vazio da boca quando não beija, não lambe, não respira. volto a ter de pensar no amor e na gramática cada vez mais estranha que envolve o que é o amor aos meus olhos mas também aos olhos dos outros - dos que falam, dos que escrevem, dos que escreveram e já morreram e não podem escrever mais mas que leio na mesma.
um texto devem ser olhos e devem ser impressões digitais, mas como só o posso dizer com a língua não o posso dizer de forma conveniente, de forma convincente, sabes? os meus textos vão morrendo comigo porque a língua se perdeu num caminho destes, e ao olhar para trás não a encontro, só casas antigas sem vidros nas janelas, ocupadas por sombras e por melros, só grandes complexos industriais abandonados com crianças a correr pelos escombros e nenhum vestígio de civilização a quem perguntar "ensine-me de novo a poesia".

Posted at 12:44 am by Cássio Almirante
marca (1)  

 
15.6.12
sono pesado para dois cães velhos e nicotina
o ano é 1994. a saia esconde mal as pernas e ao olhar é como se as pernas tivessem muitas abelhas por dentro, mas invisíveis. lá dentro é quente. deus vê sempre isto tudo com outra perspectiva mas aqui de baixo em 1994 é fácil desejar as pernas que se vão vendo no que não é a saia. as pernas todas muito orgânicas aqui em baixo, onde deus vê demais mas sem nunca se apaixonar porque para que se apaixone é preciso ver apenas o que se pode ver, e não tudo. o amor de deus é outra espécie, não envolve sangue nem saliva nem sémen nem sol nem água. seguimos a saia pelos cafés e pelas ruas, seguimos as pernas, as abelhas intangíveis dentro das pernas. isto é 1994, noutro sítio, em 1994, com um tom amarelo e cinzento nas arestas dos prédios, os carros e os outros veículos a moverem-se mas sem que as rodas se mexam, tudo só a avançar, segurado e empurrado e puxado por mãos enormes, por dedos enormes que exercem uma pressão imensa na matéria das coisas. só que as pernas são orgânicas, são alimentadas por abelhas e por líquidos quentes. e por isso seguimo-las. em 1994 é fácil segui-las, é normal e bonito que sigamos a saia com as pernas, o vento de uma ventoínha na ondulação da saia, qualquer dia o sol desliga-se e tudo isto não terá tido qualquer valor, portanto, mais vale estar-se em 1994, seguir pelos cafés, não pensar demasiado no amor e não se ter fome, não se passar pelos momentos chatos em que não há nada para dizer aos outros, encher o tempo e o espaço com aquilo que queremos e caminhar muito, à semelhança de máquinas que nunca param, que foram projectadas só para nunca pararem, com as engrenagens e os mecanismos a apodrecer, é certo, mas nunca o cansaço de se ter músculos, de se funcionar a oxigénio. ter antes abelhas a voar dentro das pernas, a reproduzirem-se eternamente, a morrerem para que outras nasçam das suas carcaças mínimas. porque esta é a maneira de amor de deus.

Posted at 11:58 am by Cássio Almirante
marcas (2)  

 
21.5.12
69
procuro um caranguejo
que se sente na minha cara
e me lamba o sexo

(devo despudorar e dizer

"e me lamba a cona", com o efeito de que se perceba, com a maior das clarezas, que sou mulher heterossexual, que tenho útero e vulva e vagina, não recear as palavras e dizer "cona", ter todas as línguas emocionais e intelectuais que me forem permitidas a lamber a "cona", a amar a "cona", mesmo que se trate - e trata-se - de um palavrão.)

um caranguejo que
se dê imenso, que me
ame com a língua e que me
fornique a boca, que
me magoe. não tenho
forças para acender nenhum
candeeiro e começa a ficar
noite neste lado do mundo.

tenho fígado e dois ovos no
frigorífico. e o fígado é do
talho. e os ovos são do
supermercado. e o meu
corpo é do supermercado
mas falta-lhe um amor
ou qualquer dádiva
(um girassol, porque não?)
desse tipo, que o faça iluminar-se
desde a boca até à nuca.
que o faça rebentar de
saliva e de líquidos e de
suor e de pálpebras intermitentes,
que limpe a casa das teias de
aranha e do pó, por uns
instantes. que me magoe a boca
com o sexo inchado,
cadente, incidente, mas,
se possível, que não me magoe
muito. só um pouco. com
o carinho possível e alguma
dedicação, para que a minha nuca
incandescente possa
fabricar e fingir

amor.

Posted at 06:23 pm by Cássio Almirante
fala  

padreação = cavalagem
fiz daquelas apostas com Deus e ganhei. mas Deus já não me ama, pois estou a morrer de gangrena gasosa num dos pés, estou a ficar cego de um dos olhos, ninguém me quer, e tu não mandaste a mensagem que ganhei na aposta. é certo que o dia ainda não acabou, claro, mas entretanto são horas de me ir embora e não adiantou de nada. olho para isto e o símile gastou-se. estou muito cansado de conjugar o verbo "olhar" ou o verbo "notar" ou o verbo "observar". o único verbo que vale realmente a pena é o verbo viver. o verbo existir. o verbo ser. mas: olho para isto e não me apetece, não me interessa. uns dias mais devagar que outros, a minha vida vai deixando de existir. é um castigo, Deus odeia-me porque tenho vindo a desistir d'Ele. e de mim.
vistas bem as coisas, parece-me que já desisti de mim há muito mais tempo, do que de Deus. e apetece-me chorar, à noite. só que às vezes não consigo. quero acreditar em Deus. a sério que sim. quero poder pedir a Deus isto e aquilo, mesmo que, para isso, tenha de cair no jogo de Lhe agradecer por isto e por aquilo. esperar que esta mulher me diga que me quer, que as coisas finalmente funcionem. que não perca um pé, um ou mais dedos, uma perna, que não morra de gangrena gasosa. que não perca a visão do olho que está a enfraquecer.

Posted at 12:42 pm by Cássio Almirante
marca (1)  

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