exa 01 by Ed




exa 02


Set Fire to Flames - Fukt Perkusiv/Something About Bad Drugs, Schizophrenics and Grain Silos

(todas as imagens neste blog são da autoria de Edgar Libório, usadas com permissão)

   

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song of my typewriter:

the best way to think is not at all-
my banjo screams in the brush
like a trapped rabbit (do rabbits
scream? never mind: this is an
alcoholic dream);
machine guns, I say,
the altarboys,
the wet nurses,
the fat newsboys,
rubber-lipped delegates
of the precious life;
my banjo screams
sing
sing through the darkened dream,
green grow green,
take gut:
death, at last,
is no headache.

Charles Bukowski, The Days Run Away Like Wild Horses Over The Hills, Ecco/HarperCollins, 1969



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15.5.09
viver
(estou à espera de ainda querer sair de casa para ir ter com alguém que me abrace, que me beije, estou à espera de querer ouvir uma voz, de tocar numa pele, de sentir um cheiro, de entrar num corpo, de falar com a minha voz para outros ouvidos, estou ainda à espera de querer viver, de ir ao cinema e de fazer viagens muito longas para me encontrar com alguém que more longe, preciso de me lembrar de como todas estas coisas eram, antes que me esqueça de vez de como sabe bem respirar só porque sim.)
Posted at 05:10 am by groze
marca (1)  

 
12.5.09
sem título #594
estou a sentar-me nesta cadeira neste café há milhares de vezes e não sinto nenhuma revelação a surgir no meu crânio. nenhuma tesoura, nenhuma lâmina, nenhum brilho, nada. estou rodeado de seres humanos, sou um acaso no meio de acasos, sou uma existência no meio de existências e não estou a provar nada com isto. bebo o café do costume, pela milésima vez, retiro e arrumo os cadernos e as canetas pela milésima vez, chamo a empregada de balcão que tem o aparelho dentário pela milésima vez, vou à casa de banho mijar pela milésima vez, vejo as mesmas velhas entrarem, tomarem chá, lerem revistas casuais e saírem, novamente, pela milésima vez, os mesmos acasos repetidos na película dos dias até quase deixarem de ser acasos, indelevelmente mancham o filme imenso da eternidade, deixando uma marca de infinito num ponto específico do caos universal, organizando um bocadinho esse caos, fazendo das velhas e de mim uma espécie de demiurgos rurais, a organizar o tecido do tempo na província, sentados num café a beber e a ler e a pensar sobre as coisas.
Posted at 03:57 pm by groze
fala  

No restaurante turco
Eu não sei o que pedir e tu pedes uma pide. Eu reparo que nunca na vida pediria uma pide, não sei o que isso é, mas talvez esteja demasiado marcado pela demanda anti-fascista que desenvolvi com o passar do tempo. E digo-te: "não comas isso! Eles não sabem que nem sequer deviam ter pratos com esse nome, neste país?" É possível que me esteja a tornar demasiado intolerante, demasiado pouco livre no conteúdo das palavras, dizes-me tu, alegando que uma coisa não tem nada a ver com a outra, dando uma dentada na pide, que continuo, por esta altura, sem saber o que seja. Assim como assim, a verdade é que não gosto do aspecto da pide, não gosto da comida demasiado condimentada, não aprecio restaurantes indianos nem chineses, não gosto dos japoneses porque parece que a única coisa que há no Japão é sushi, como se eles não comessem carne nem bolos nem nada. Só peixe cru. E não aprecio visualmente a pide que vais comendo com satisfação. Mas talvez deva arriscar comer um bocadinho. Provar a pide.
Posted at 03:37 pm by groze
fala  

 
11.5.09
Franz Ferdinand
Amei-te enquanto tiveste vinte anos, enquanto me foi possível, enquanto o meu corpo respondia aos afectos do teu corpo, às tuas formas e ao teu calor, aos teus rios subterrâneos. Depois, acontece-nos mudar e conhecer outras pessoas, enfim, tu entendes, às vezes vejo-te em sonhos, nunca mais te vi na realidade da vida, na contemporaneidade de nós, aqui, quero dizer, num quarto ou numa casa, num corredor, numa igreja, num museu, num autocarro, num café, parada junto a uma montra, numa livraria, num parque de diversões, num cinema, num concerto... páro muitas vezes no mercado da fruta, sei o preço das laranjas e das maçãs, das nêsperas, quando é tempo delas, das pêras, até das romãs, que nem sei para que servem. A Maryna ensina-me nomes ucranianos, em russo, mas nunca tenho tempo para aprender o alfabeto cirílico.

Vou acumulando muito de mim mesmo, muito de ti, ainda.
Posted at 03:52 pm by groze
fala  

 
29.4.09
Carmen
para o João, que deve ser a pessoa com pila a quem dediquei mais textos. É, garantidamente.

Veste o casaco, vamos embora, falamos de filosofia pelo caminho. Os comboios não esperam, estão a destruir as árvores pelo caminho, com machados, estão a destruir os prédios e a queimar mulheres nas ruínas. Olho para ti de um canto de beijo, através de um vidro, a trepidação do comboio nas vértebras acentuam a tua sombra contra as paredes, os teus dedos vasculham nos bolsos mais um maço de cigarros, talvez o mesmo de sempre, infinito, cheio de estrelas ruidosas. Coças o queixo como se fosses um insecto, com sons metálicos, cheio de líquidos, cheio de corpos que não são o teu, cheio de dores que nunca contas, que nunca falas, mas que a tua sombra e as vértebras guincham, num pó esquisito. Estás cheio de nuvens e de rio, de bairros, de mulheres mortas, de praia, e o comboio por contraste parece tão vazio, mesmo cheio da minha vida cá dentro. Dizes: "destroem as árvores e, a mim, que me interessa?" mas olhas o sangue disso tudo e caminhas no meio de ruínas com uma voz branca, os pés magros tão cheios de poesia e de teatro, o cabelo solto tão cheio de ossos, de líquidos, de coisas electrónicas, de frases.

Durante muitos anos procurei um nome para ti e noto que ele não existe, H, de Homem, mas não, isso era tão pouco, és uma comida, um fruto cheio de gomos, cheio de casacos, cheio de cigarros, cheio de incêndios na ponta da boca, pendentes dos lábios; pergunto-te o teu nome à espera que me respondas mas a ti, que te importa?, o teu nome é o que eu quiser chamar-te nesta falta, nesta ausência, eu, cheio de colheres, cheio de pratos vazios, cheio de hidratos de carbono nos armários, cheio de fome, portanto, chamo-te S, de Sombra, ou F, de Fumo, chamo-te O, de Outro, de Outro de Mim noutro lugar. Veste-te, vamos embora, o mundo está a desaparecer, vamos embora, põe o casaco, acende os lábios com um incêndio de papel, vamos morrer para longe, devagar, cheios de pó e de álcool.

Trânsito interdito a veículos sem dístico local.
Posted at 05:45 pm by groze
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22.4.09
départ
Nunca pensei que me custasse despedir desta mulher num quarto em Marselha e, no entanto, aqui estou eu, protagonista de uma história onde não interesso, de camisa e sem calças, a olhar para as costas nuas e os cabelos ruivos sobre a cama, com um cigarro aceso no meio da boca, a assinalar - AQUI É O MEIO DA TUA BOCA. Não sei ao certo o que fazer, o comboio há-de partir dentro em breve e não me convinha esperar que ela acordasse. Mas não a quero acordar, acho que prefiro perder o comboio e ganhar nem sei bem o quê, aqui. Volto a arrumar o dinheiro na carteira, sento-me na cama, de costas voltadas para a mulher que conheci ontem num bar em Marselha, embora nunca deixe de sentir o seu cheiro. Talvez por causa disso mesmo é que eu sinta que não sou protagonista nenhum, embora conte esta história e a mulher de Marselha seja apenas umas costas e uns cabelos ruivos e um cheiro. Na verdade, a mulher de Marselha é este texto, eu sou um adereço da mulher de Marselha, não sou importante. A mulher de Marselha é esta gramática, foi uma fonte que me deu de beber a noite inteira, o seu rosto iluminado, iluminando a minha alma ofegante no peito, branca na estação da noite, a dizer coisas em francês enquanto eu tomava banho, enquanto eu telefonava para casa a saber das coisas, a saber dos horários do comboio.

Calculo que não fará muito mal se voltar daqui a um mês... daqui a um ano.
Posted at 10:29 pm by groze
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21.4.09
Japão
os cactos, no quintal, são mais como unicórnios, há umas partes que morrem, para que outras vivam.
Posted at 01:40 pm by groze
fala  

 
20.4.09
John Coltrane
o som inverso nas escadas lembra crianças na rua com os paus a açoitar animais. a cidade está morta, velha, gasta, nos matadouros queimam violoncelos e contrabaixos enquanto as putas soluçando enfiam a cabeça nas almofadas e fingem e choram por algum dinheiro. chamo-me Alexandre Brito, chamo-me Francisco Amaral, chamo-me Orlando Moita. dá-me a impressão, secretamente digital, de que não sou daqui, que não nasci aqui. as crianças gritam enquanto açoitam animais com os paus, com as vergastas verdes. o meu repouso é um autocarro por entre os detritos, uma viagem amarela, fosforescente, por entre o lixo. lá ao fundo ouço um piano e é um vagabundo quem o toca. o piano está em chamas. que porra, são só as imagens que me ficaram do matadouro onde queimavam contrabaixos e violoncelos. as crianças cosem as bonecas com fio de nylon, os meus pés caminham em direcção à porta, o solavanco da viagem, esta

vertigem

inteira. frutos secos na janela, meu deus, há quanto tempo não vejo frutos secos! e saboreio-os hoje de tarde neste programa de rádio, faço o meu serviço no fundo do autocarro, espero que ele me leve para uma cidade diferente, longe daqui, onde a minha boca se perca na estática e no ruído, onde as minhas pernas não tremam, não cedam perante a cona das putas. foda-se, era bom se nessa cidade não houvessem

putas?

se eu fosse um animal provavelmente já teria morrido porque não me adapto. porque numa luta perco sempre. se eu fosse um animal era tudo mais fácil mesmo que hoje não existisse ou, vistas bem as coisas, por isso mesmo.
Posted at 01:04 am by groze
fala  

 
19.4.09
8
no quarto, os olhos lentamente vão-se transformando em serpentes; ponho a mão sobre a barriga e penso: "desejei este filho tanto tempo e agora..."

depois faço uma pausa para o café. aqueço um púcaro ao lume, deito o fósforo para o lixo quando tenho a certeza de estar apagado. os meus olhos transformam-se em
calma
primeiro continuo o meu raciocínio. esperei anos por este filho, Tiago ou, para o caso de ser menina, Madalena (mas sei que é menino, foi esta ser- cala-te!)
foi esta serpente em que os meus olhos lentamente se transformam que me disse, não vale a pena mentir nem tentar esconder, sei que é um menino, sinto-o crescer e rebolar numa água eterna, neste momento é meu, pertence-me, se eu morrer ele morre, se eu tratar de mim, trato dele, por isso deixei de fumar e de
foder também, mas isso é outra questão, não tem a ver, é porque-
comer gorduras, ando mais a pé porque amo o meu filho, Tiago ou Diogo ou (e se estou enganada e é uma menina?) não, não pode
ser.

ligo a televisão, o frigorífico, as gaivotas roçam os vidros, as serpentes, as lagartixas, o meu filho faz muito ruído estático, esperei-o durante anos, estava-me prometido, guardado num desígnio cósmico, escrito por uma mão enorme, com as unhas aparadas,
esses olhos lenta
mente
ser
pentes

depois pedem-me para contar até cinco, ou de cinco até zero (devo dizer: 0) e a serpente enrola-se, trinca a própria cauda e começa a digerir-se e nessa forma de oito
o meu filho, os meus olhos, a minha barriga, os meus dedos, eu
vejo a eternidade, o infinito, afinal,
tal
vez
são a mesma coisa!, os meus olhos transformam-se numa serpente eterna, o meu útero ruge de cianeto, os meus dedos no lavatório, os meus lábios roxos, as gaivotas, as nuvens, porra, as nuvens, como são bonitas, lá fora, vogando sobre as gaivotas, as nuvens
são a coisa mais bonita

do
mundo...
Posted at 09:42 pm by groze
marcas (2)  

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