exa 01 by Ed




exa 02


Set Fire to Flames - Fukt Perkusiv/Something About Bad Drugs, Schizophrenics and Grain Silos

(todas as imagens neste blog são da autoria de Edgar Libório, usadas com permissão)

   

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song of my typewriter:

the best way to think is not at all-
my banjo screams in the brush
like a trapped rabbit (do rabbits
scream? never mind: this is an
alcoholic dream);
machine guns, I say,
the altarboys,
the wet nurses,
the fat newsboys,
rubber-lipped delegates
of the precious life;
my banjo screams
sing
sing through the darkened dream,
green grow green,
take gut:
death, at last,
is no headache.

Charles Bukowski, The Days Run Away Like Wild Horses Over The Hills, Ecco/HarperCollins, 1969



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21.5.12
69
procuro um caranguejo
que se sente na minha cara
e me lamba o sexo

(devo despudorar e dizer

"e me lamba a cona", com o efeito de que se perceba, com a maior das clarezas, que sou mulher heterossexual, que tenho útero e vulva e vagina, não recear as palavras e dizer "cona", ter todas as línguas emocionais e intelectuais que me forem permitidas a lamber a "cona", a amar a "cona", mesmo que se trate - e trata-se - de um palavrão.)

um caranguejo que
se dê imenso, que me
ame com a língua e que me
fornique a boca, que
me magoe. não tenho
forças para acender nenhum
candeeiro e começa a ficar
noite neste lado do mundo.

tenho fígado e dois ovos no
frigorífico. e o fígado é do
talho. e os ovos são do
supermercado. e o meu
corpo é do supermercado
mas falta-lhe um amor
ou qualquer dádiva
(um girassol, porque não?)
desse tipo, que o faça iluminar-se
desde a boca até à nuca.
que o faça rebentar de
saliva e de líquidos e de
suor e de pálpebras intermitentes,
que limpe a casa das teias de
aranha e do pó, por uns
instantes. que me magoe a boca
com o sexo inchado,
cadente, incidente, mas,
se possível, que não me magoe
muito. só um pouco. com
o carinho possível e alguma
dedicação, para que a minha nuca
incandescente possa
fabricar e fingir

amor.

Posted at 06:23 pm by Cássio Almirante
fala  

padreação = cavalagem
fiz daquelas apostas com Deus e ganhei. mas Deus já não me ama, pois estou a morrer de gangrena gasosa num dos pés, estou a ficar cego de um dos olhos, ninguém me quer, e tu não mandaste a mensagem que ganhei na aposta. é certo que o dia ainda não acabou, claro, mas entretanto são horas de me ir embora e não adiantou de nada. olho para isto e o símile gastou-se. estou muito cansado de conjugar o verbo "olhar" ou o verbo "notar" ou o verbo "observar". o único verbo que vale realmente a pena é o verbo viver. o verbo existir. o verbo ser. mas: olho para isto e não me apetece, não me interessa. uns dias mais devagar que outros, a minha vida vai deixando de existir. é um castigo, Deus odeia-me porque tenho vindo a desistir d'Ele. e de mim.
vistas bem as coisas, parece-me que já desisti de mim há muito mais tempo, do que de Deus. e apetece-me chorar, à noite. só que às vezes não consigo. quero acreditar em Deus. a sério que sim. quero poder pedir a Deus isto e aquilo, mesmo que, para isso, tenha de cair no jogo de Lhe agradecer por isto e por aquilo. esperar que esta mulher me diga que me quer, que as coisas finalmente funcionem. que não perca um pé, um ou mais dedos, uma perna, que não morra de gangrena gasosa. que não perca a visão do olho que está a enfraquecer.

Posted at 12:42 pm by Cássio Almirante
marca (1)  

 
2.5.12
houve um tempo em que as esferográficas vermelhas cheiravam a morangos
"o meu olho esquerdo conta como opção livre, está aqui quieto embora ocasionalmente pense nas palavras certas para dizer, e essas palavras podem ser «pano» ou «vapor», coisas práticas, não usadas muitas vezes no quotidiano académico, quando se está na área da filologia. o meu olho esquerdo tende a tremer quando o sangue falta, quando não chega bem até lá - geralmente quando dorme pouco ou quando ouve música demasiado alto."

Posted at 03:09 pm by Cássio Almirante
fala  

 
30.4.12
chama-mebaixopelonomequandofizermosamor-nãodigas"fazeramor",caramba,estoutãocansadadetedizerisso!
dizantesfoder,dizantesfazersexo,dizantescomerborboletasdouradas
pelacona,dizantesobterumcristaldeluanapiça,nocaralho,chama-lhecomoquiseres-portanto,meuamor,chama-mebaixo
pelonomequandofodermos,estámelhorassim?,
quandofodermos,meuamor,oqueacontecedevezemquando,eeuseiquesouuma
miséria,quevaisdizendoquegostasporquenosamamosequeessacoisada
químicaentrecorposésobrevalorizada,oqueinteressarealmenteéoamor,quandose
amaosexoésempremelhor,mesmoqueaoutrapessoanosesmagueocabelocomos
braços,comoscotovelos,mesmoqueemcertasalturasnãoaguentetantocomoseriade
esperar,etenhamosdeficarabraçados,àespera,avontadeabatercomoummarintenso,
imenso,nasparedesdacona,asmamasaprecisardelábios,demãos,decabelosede
unhas-quehátambémsempreespaçoparaascoisasmortasdoscorpos,unhasecabelos,
entreoutras,pele,porexemplo,massóaqueselargadasuperfície
emuitasvezes,senãosempre,osácaroscomem-ligaasjanelas,queéprecisooutrovolumedesomantesque
fiquemossurdosdetanta
fisicidade,ficatudotãoalto,tãoclaro,tãoensurdecedor,duranteduassemanasécomo
setodososoutrosestivessemtãodistantes,falam-nosmasparecequeestãodentrodeumtanque
fechado,avozfica-lhesabafadaenãoonotam...chama-mepelonome,masquaseemsegredo,
seguraumalanternaouumalâmpada,queosteuslábiosarroxeadosdeamorefaltadear-mas
sobretudodeamor-saibamomeunome,mesmoqueosteusolhosestejamencerradosparaodiadehoje,
juntoaosmeusouvidos,dizbaixinhoomeunomejuntoaosmeusouvidos,fazcomquefaça
sentidoquandofodemos,somosumsó,somosumplaneta,nemsequerumdenósum
satélitedooutro,somos,isso,sim,omesmoplaneta,comactividadevulcânica,
eéverdadequeessacoisadaquímicaéverdadeeque,porvezes,nãoservimos,mas
deveservirdealgumacoisaaomenosamarmo-nos-eamamo-nos,nãoamamos,
meuamor?dizomeunome,pede-meomeunome,éprovávelquemeesqueçadeleumdia
qualquer,éprovávelquechoremuito,quemeapaixonemuito,plantaomeunomecomo
umaárvoreperenenaplaníciedomeupeito,nocalváriodomeupeito,omeunome
adarmuitasmaçãsouromãs,conformeatuapredilecçãoemconformidadecoma
minha,meuamor,estamosaqui,juntosnisto,somosumplanetacomdoishemisférios,
oteupaísdepernas,deúterosferrugentoseinférteisestáaganharcontraumcontinente
detesourasedeálccoletílico.

"em criança fazia coisas hediondas com batráquios, à beira do rio. não gosto da palavra batráquios, mas isso não é desculpa. sei que sou uma péssima pessoa, sei que estou descalço de todas as verdades, e que assim é porque o quero. tenho as mãos vazias, a partir de uma certa idade não é correcto matar batráquios lentamente e tirar prazer da sua morte. a partir de uma certa idade, olho para as minhas mãos vazias e garanto que mais valia serem batráquios mortos."

meuamor,oteunome?"omeunomeéigualaumanuvemqueengoliste,eraamoníaco."
omeunomeéinválido,comoumcaracolvazio-portanto,umacasca,ar,ládentro,mas
umacasca.omeunomepodematartodasaspessoasdomundo,meuamor.éumplaneta
ouumlancedeescadas.masnuncaumanuvemdeamoníaco.

Posted at 05:07 pm by Cássio Almirante
fala  

 
27.4.12
dueto para mão e Ctrl+Alt+Del
(quando escrevo ao computador é igual a um pianista, mas sem grande destreza na mão esquerda, que, num teclado QWERTY se fica pelas letras qwerasdfzxc, o Shift esquerdo e a tabulação. mas, de resto, é igual. tenho a cabeça baixa e os olhos semi-cerrados e cabelo sobre o rosto, levanto os dedos, levanto muito os dedos, olho para o monitor com o encanto místico de ler isto, isto aparece, e quando faço parágrafos, quando crio quebras de linha

carrego

no Enter

como se acabasse de tocar Beethoven, Liszt, Schubert, Chopin.)

Posted at 04:29 pm by Cássio Almirante
marca (1)  

 
26.4.12
para ajuda prima F1
quantas horas demora o olho doente a abrir-se por completo? dedico-me a essa tarefa desde que acordo, de manhã, e reparo que só está esplendoroso à noite, quando, por falta de companhia e de actividade, já são horas de me deitar e dormir. a televisão tem o aspecto de um musgo subaquático, está ali, permanece ali, com pó e uns bibelots por cima, bonecos de porcelana - não posso deixar de referir a televisão, por mais que me magoe profundamente lembrar da quantidade inumerável de vezes em que comecei ou acabei por dizer "a televisão". a televisão tem o olho sempre só meio aberto, nunca dorme, não me interessa, às vezes durmo em frente à televisão porque, com os dias, com os meses, ao fim e ao cabo com os anos, ganha-se um torpor, ganha-se um incómodo constante que a televisão, apesar de tudo, vai disfarçando por momentos, connosco sentados de lado, no sofá, a entrar pela barriga da noite, com a sala cheia de fumo do tabaco e a televisão, a porra da televisão em vómitos pequenos, contínuos, a iluminar as paredes, a provocar sombras, jogos de luzes, um olho meio aberto mas muito colorido, com sangue e as vidas dos outros todas muito rápidas e muito perfeitas, altamente imitáveis, lá dentro, a acontecer. a televisão é uma baba no braço do sofá, com a cabeça a doer e o corpo a ir mudando de posição conforme as horas, os meses, os dias, as décadas. o olho meio aberto e os nossos olhos meio abertos, sempre este sono, esta baba, desde que há televisão que há sono mas não se dorme. neste caso a televisão tem o ar de um musgo subaquático, de uma planta rente ao chão do mar, onde é tudo lento por causa da água.
sou um feto em frente à televisão de olhos meio abertos, dói-me a cabeça num dos lados, tenho de sair daqui, dormir, guinchar como um pássaro nocturno, reaprender o meu nome.

Posted at 04:13 pm by Cássio Almirante
fala  

 
23.4.12
xvxiimcmlxxxiii
deixar a madeira apodrecer para que, sob o teu peso, colapse e caias no andar de baixo, uma cave inundada iluminada só por uma lâmpada de 40 Watts. é como nos filmes de terror de série B italianos dos anos 80. mas contigo, morena, assustada, com a perna esquerda a doer de repente. e a água a cheirar mal, de tantos anos parada, a lâmpada tão pouco para a escuridão. preocupam-te mais as cáries do escuro, os dentes enegrecidos de água e do amido.

Posted at 10:08 pm by Cássio Almirante
fala  

princesa (coisa sentimental, vol. I)
a tua língua a aparecer de vez em quando no meio dos lábios, querida, é como uma pedra coberta de musgo e isto é o que sei fazer melhor. morder os lábios quando a tua boca cheira a água que corre à noite nos telhados da cidade. ouvir-te dizer que não me amas, em resposta, amar-te na mesma, querida, não saber onde deixar as mãos feridas, não ter acesso ao teu dorso, como se fosses um animal selvagem. querida, és um animal selvagem aninhado nuns braços cansados.

Posted at 10:04 pm by Cássio Almirante
fala  

 
16.4.12
lollipop belly
Encho-me de coragem antes de encostar o ouvido ao chão. Na curva da linha férrea, mesmo que o comboio passe devagar não dá tempo de me ver e de não me cortar a cabeça, assim, limpo. Aqui há tempos houve uma mulher que se matou neste sítio, com a mãe. Segurou a mãe, encontraram-nas ali, os corpos normais, só que, depois, no topo, sem cabeça. Ela estava a segurar a mãe, provavelmente a mãe não queria mais aquilo, à última da hora, queria desistir, "estou velha mas não me apetece morrer, e tu também não devias desistir assim de tudo isto, que és mais nova, só porque houve um homem na tua vida e agora já não há." Mas a filha não ouviu nada e segurou-a como se segura um bebé, os bebés e os velhos não têm força, seguram-se facilmente, magoam-se facilmente, matam-se ainda com mais facilidade. A filha era mais nova mas mesmo assim já não era nova, tinha havido uma altura em que - não digo que fosse feliz, mas, pelo menos, era mais feliz do que estava, agora - tinha tido um marido, um companheiro, um homem que lhe fazia companhia, que lhe beijava as coxas, por dentro, ela ainda com as cuecas vestidas mas mesmo assim sem evitar os líquidos próprios de quem recebe beijos na parte interna das coxas por parte da pessoa que ama, sem evitar os cheiros, ele dizia que o cheiro dela o deixava maluco e tocava-lhe no sexo, sobre as cuecas, com o nariz e com os lábios e com o queixo e o sexo estava como uma papoila aberta e cheirava bem e parecia coberto de um orvalho espesso que molhava as cuecas. E ele nunca lhe despia as cuecas, tocava-lhe por cima das cuecas com os dedos, com os lábios, dizia que ficava maluco com o cheiro dela e ela puxava-lhe os cabelos e empurrava-lhe a boca contra o sexo tapado, ele molhava-lhe as cuecas com saliva e ela molhava as cuecas com os líquidos próprios de quem recebe beijos íntimos da pessoa que ama. Mas depois ele foi-se embora, ela ficou sozinha com a mãe, a mãe era mais velha, os médicos diziam cada dia mais que estava a ficar senil, a velha, tremia muito do pescoço e das mãos, estava sentada o dia todo num sofá, sob a janela da cozinha, encostava a cabeça e fechava os olhos, que eram pequenos, já, só duas pálpebras e um risco escuro onde elas se separavam uma da outra. A velha dormia.
Dizem que o comboio lhes cortou as cabeças e que não sentiram dor, há teorias sobre isso, sobre uma consciência que permanece cerca de um minuto, nas cabeças decepadas, mas os comboios cortam os corpos cirurgicamente, só uma linha, se se tivesse a tecnologia para isso, bastava encostar as partes cortadas e as pessoas podiam voltar a viver, respirar, sofrer, morrer outra vez. Eu não tenho coragem, tenho o ouvido encostado ao chão, os carris não trepidam, estão só quentes, de estar ao sol por tantos dias seguidos, brilham, separam um lado do outro, se se colasse um lado ao outro de certeza que o chão podia voltar a viver outra vez.

Posted at 05:09 pm by Cássio Almirante
fala  

reciclagem
não és sorrisos nem pele nem praia. és um animal, um insecto, estás a rebentar de sangue e de mês a mês precisas de mim mas não me deixas lamber-te o sangue sujo de porcaria e de óvulos inutilizados (ovócitos). amo-te mais do que qualquer outro te amou antes e preciso com urgência de sentir o teu amor dentro da minha boca.

sou uma unha encravada, nota bem isso. estou roxo de sangue coalhado e a minha língua enche-me a boca, vejo peixes que à tona da água lembram escamas. são escamas também. passa os dentes pelas escamas dos peixes. apaga um cigarro nos olhos dos peixes, nas minhas costas, sou uma carraça, uma bolsa de sangue prestes a rebentar.

Posted at 12:39 pm by Cássio Almirante
fala  

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