serenata para mão de vaca estufada
o que era ilógico era a mãe surgir sempre no fim dos sonhos, a abrir a porta, à noite, sem feições nem outros contornos dentro do contorno grande do corpo contra a luz do corredor. sempre com o mesmo ruído estático, cada vez mais alto, um som arrastado de vozes que cantavam os parabéns numa língua estrangeira. nem trazia leite nem água nem uma aspirina para as dores de dentes, nada! e o volume da coisa arrastada no meio da estática e da sirene ao longe, contínua, a indicar um incêndio ou um bombardeamento aéreo, incessante e abafada pelos vidros e pelos estores; era como se fosse tudo uma alucinação, mas não era, era verdade, ou, enfim, pelo menos parecia verdade. e depois a mãe aproximava-se e parecia um gato, o focinho de um gato assanhado, e escondia-se debaixo dos lençóis, na escuridão, sempre e só à espera que a mãe se fosse embora, mesmo que morresse ali à sede e à fome, com cãibras e tiques nas mãos e nos olhos, afundada num oceano de cobertores e lençóis.
a televisão dava sempre o mesmo programa e cheirava a mijo dentro da cabeça.
Posted at 04:19 am by groze