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exa 02


Set Fire to Flames - Fukt Perkusiv/Something About Bad Drugs, Schizophrenics and Grain Silos

(todas as imagens neste blog são da autoria de Edgar Libório, usadas com permissão)

   

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song of my typewriter:

the best way to think is not at all-
my banjo screams in the brush
like a trapped rabbit (do rabbits
scream? never mind: this is an
alcoholic dream);
machine guns, I say,
the altarboys,
the wet nurses,
the fat newsboys,
rubber-lipped delegates
of the precious life;
my banjo screams
sing
sing through the darkened dream,
green grow green,
take gut:
death, at last,
is no headache.

Charles Bukowski, The Days Run Away Like Wild Horses Over The Hills, Ecco/HarperCollins, 1969



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25.8.09
dizíamos ter lido o Germinal de Zola sem, de facto, o termos feito.
para a Sara

Eu estava sentado numa toalha e tu estavas deitada na areia; assim, por esta ordem concreta, eu, depois tu, o meu corpo, depois o teu. E tu fumavas um cigarro que eu tinha acendido, os meus lábios estavam todos feridos, todos negros, tu dizias que era do frio mas aproveitavas e fumavas os meus cigarros, roubavas-mos, com uns gestos musicais. Não sei se era do frio, nem tampouco me importava com os teus lábios a roubar os meus cigarros, a levar os meus cigarros dos meus lábios, a levar os meus lábios para os teus.
- não te incomoda?
- o quê? as dores nos lábios?
- não, o facto de eu ser de 1991... não te incomoda?

E obviamente colocavas-me uma mão nas costas, e os teus dedos transformavam-se em heras que envolviam o meu torso, e depois encostavas-me os lábios ao pescoço e dizias:
- toma o teu cigarro, está nos meus lábios.
Mas eu sabia lá onde estava o meu cigarro, estava nos teus pulmões e nas tuas artérias, estava na tua coluna vertebral, na tua medula, no teu sistema nervoso, o meu cigarro carregado dos meus lábios e, afinal, incomoda-me, ou não, o facto de seres de 1991? Acho que nunca pensei muito nisso...
- acho que nunca pensei muito nisso...
E coloco a boca sobre os joelhos, ou, dirias, os joelhos sob a boca, e olho para areia, embora na verdade olhe para os teus pés de 1991, leves e jovens, ainda tão capazes, ainda tão lisos, sem calos nem cicatrizes. E tu andas mais descalça do que eu, e eu a roer os joelhos, a precisar de chorar, de chorar-
-te,
entendes? Não me incomoda, desde que brinques com as pernas, uma erguida, como uma alavanca, enquanto a outra, proporcionalmente, estendida, e depois invertidamente, num movimento cadente e incessante, tu, inteira, uma savana mecânica, feita de animais e folhas, troncos e roldanas, nervos, ah!, tantos nervos eléctricos, a libertar faíscas azuis quando me tocas, a boca só música, os lábios só fumo, o meu cigarro, os meus lábios onde? Nos teus pulmões, nos teus ossos, no teu sangue arterial e venoso, circunvalando pelas tuas veias e pelas tuas artérias, minha querida, não me importo...
- não me importo que sejas de 1991 porque preciso de te chorar, tens em ti o cigarro que me roubaste, deves-mo e eu devo-te os meus lábios, ainda que enegrecidos, temos aqui estes livros todos para ler e sei que provavelmente nunca os abriremos, o teu corpo importa-me mais, os teus olhos e os teus lábios.
- toma o cigarro que te roubei outra vez.
E choro-te durante muitos séculos, talvez um milénio, nessa altura, no fim, somos ambos tão velhos e tão vagos, meu amor, que já nada nos incomoda; somos só duas coisas que pensam ser uma, de braços abertos e com os sexos a jorrar uma luz
indescritível.
Posted at 06:16 pm by groze

 

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