the best way to think is not at all- my banjo screams in the brush like a trapped rabbit (do rabbits scream? never mind: this is an alcoholic dream); machine guns, I say, the altarboys, the wet nurses, the fat newsboys, rubber-lipped delegates of the precious life; my banjo screams sing sing through the darkened dream, green grow green, take gut: death, at last, is no headache.
Charles Bukowski, The Days Run Away Like Wild Horses Over The Hills, Ecco/HarperCollins, 1969
esta coisa da vida esta coisa do amor esta coisa do cansaço esta coisa da solidão esta coisa da existência esta coisa da sobrevivência esta coisa da subsistência esta coisa do desespero esta coisa da poesia...
vamos acreditar no inferno para outro lugar mais próprio, onde não haja pessoas. só nós, resumidos a uma não-vida feliz. numa cidade feita de cactos e mãos de homens mortos pelo tempo e pelas doenças, os pulmões inteiros uma nuvem de tabaco. esta cidade é o nosso destino. ouves-me deste lado da parede, deste lado do sangue, deste lado das palavras, deste lado da água?
Este é o meu processo de escrever - de viver -, ir vendo estrelas (só reconheço Orion e a Ursa Maior, quando era pequeno encontrava a Cassiopeia), ir ouvindo música muito alto nos ouvidos, com a distorção, com os dedos, com os dentes, com o fumo, ir passando tardes no mesmo sítio, amando todas estas mulheres bonitas em frente. Amo-te. Amo-te. Amo-te. Até isto se ter gastado tudo. E já não fazer sentido.
quero (preciso) das tuas tuas pernas em torno do meu pescoço...
a cidade é feia. muito. mas a sua música específica advém disso mesmo. as gruas no horizonte, os prédios desalinhados, os néons vermelhos das churrasqueiras, a universidade de belas-artes. a cidade, cheia de madressilvas ao entardecer, deserta... um deserto é um local cheio de nada. que fabulosa imagem. nada e prédios e madressilvas.
mamã: às vezes queria dizer-te que fumo, tenho fumado tanto, tenho-me cortado tanto, cá dentro. o meu coração é uma pedra preta cheia de musgo, cheia de insectos e bichos mortos, repara só nisso um instante. em certos dias sinto que já dei tudo o que tinha para dar. já fodi tudo, já respirei tudo, por isso agora só respiro fumo. muito fumo. e sai-me caro, mãe. estou aprisionado numa cela de costelas e os pulmões doem-me antes de tempo, em convulsões. em certos dias só falamos de sangue ou, pelo menos, é isso que parece. vimos já muitos filmes de terror antigos (são os únicos que valem a pena), com o sangue a escorrer das paredes e dos quadros; até desculpamos o facto de os efeitos especiais nesses casos serem uma merda; sabemos que nem era sangue mas não ligamos. temos os dedos amarelos, como páginas de jornais muito velhos. temos os dedos muito velhos, muito mortos, são como páginas de um obituário de um outro universo, distante ou paralelo, em que que nos sobrepomos aos outros de nós. diz-me que não estou a morrer todas as manhãs... diz-me com jeitinho que não sirvo para nada, hoje.
passar três horas na cama, a tremer de frio e de desgosto, em posição fetal, e cultivar, assim, sonhos e ideias, regar isso tudo com gengivas e ferrugem, ler, ler muito, ler tudo, informações nutricionais nos pacotes de cereais ao pequeno-almoço, ler o Dom Quixote, ler as legendas dos desenhos animados, ler a marca dos botões da camisa cinzenta. amar ou deixar o coração murchar lentamente, bater com a cabeça nas mesas, quando pesa de nervos, de cérebro, de magnetismos absurdos. dormir pouco, beber café, deixar de nos sabermos encantar com as pessoas, dever muito dinheiro nos bares, nos cafés, vomitar muito na casa de banho dos bares, dos cafés, até alguém derrubar a porta sobre as nossas costas, tudo coberto de nuvens cor-de-rosa e mulheres grávidas a lavar as mãos em frente a um espelho olhando pelo canto do olho direito, assustadas, fingindo "eu não vi nada disto, não presenciei, não existi"
tomar banho depois de foder, nunca ter o cheiro de nenhum corpo a fugir para dentro do pescoço, para as pregas dos dedos, levantar, tomar banho, vestir, sair de casa trancando todas as gavetas, todas as portas, todos os armários, deixar comida para os gatos sobreviverem durante uma semana, deixar três caixas de areia para que mijem e caguem no sítio indicado, ter trocos para o comboio, para o autocarro, ter lenços para assoar o nariz, chorar pouco, chorar muito, mas na escuridão de uma alma acastanhada, o castanho é o luto da alma, assoar a alma de vez em quando, um pingo no nariz, uma estalactite de lágrimas e de ranho, se o sol lhe bater de lado projecta um arco-íris na ortografia, na parede. ter gatos, ter cães, ter canários e periquitos, prostituir os animais quando estamos tristes e achar que nos amam incondicionalmente.
só perceber o que os nossos amigos queriam dizer com certas coisas
hoje notei, ao acordar, que tinha o maxilar cheio de vapor. de pressão, entendes? os dentes partiam-se em pedaços, lá dentro, e a língua rasgava-se de sangue e pus e saliva. e não sei de onde vinha tudo isso, talvez da música ou do peito, não? não sei, é a verdade, portanto decidi enforcar-me com uma gravata na trave mestra do sótão.
o silêncio não existe. está cheio de barulhos de nada. de motores, de exaustores, de cigarros, de vento, de folhas, de pálpebras e de dedos, de cabelos, de copos, de lábios, de líquidos, de chuva...
a única coisa que não há, no silêncio, é silêncio.