exa 01 by Ed




exa 02


Set Fire to Flames - Fukt Perkusiv/Something About Bad Drugs, Schizophrenics and Grain Silos

(todas as imagens neste blog são da autoria de Edgar Libório, usadas com permissão)

   

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song of my typewriter:

the best way to think is not at all-
my banjo screams in the brush
like a trapped rabbit (do rabbits
scream? never mind: this is an
alcoholic dream);
machine guns, I say,
the altarboys,
the wet nurses,
the fat newsboys,
rubber-lipped delegates
of the precious life;
my banjo screams
sing
sing through the darkened dream,
green grow green,
take gut:
death, at last,
is no headache.

Charles Bukowski, The Days Run Away Like Wild Horses Over The Hills, Ecco/HarperCollins, 1969



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2.10.09
em prol de uma língua universal
no youtube posso escrever
foder foda fodilhão
puta cabrão cona caralho

que ninguém me ralha por usar palavras

feias.
Posted at 04:29 pm by groze
fala  

 
5.9.09
serenata para mão de vaca estufada
o que era ilógico era a mãe surgir sempre no fim dos sonhos, a abrir a porta, à noite, sem feições nem outros contornos dentro do contorno grande do corpo contra a luz do corredor. sempre com o mesmo ruído estático, cada vez mais alto, um som arrastado de vozes que cantavam os parabéns numa língua estrangeira. nem trazia leite nem água nem uma aspirina para as dores de dentes, nada! e o volume da coisa arrastada no meio da estática e da sirene ao longe, contínua, a indicar um incêndio ou um bombardeamento aéreo, incessante e abafada pelos vidros e pelos estores; era como se fosse tudo uma alucinação, mas não era, era verdade, ou, enfim, pelo menos parecia verdade. e depois a mãe aproximava-se e parecia um gato, o focinho de um gato assanhado, e escondia-se debaixo dos lençóis, na escuridão, sempre e só à espera que a mãe se fosse embora, mesmo que morresse ali à sede e à fome, com cãibras e tiques nas mãos e nos olhos, afundada num oceano de cobertores e lençóis.

a televisão dava sempre o mesmo programa e cheirava a mijo dentro da cabeça.
Posted at 04:19 am by groze
fala  

 
25.8.09
dizíamos ter lido o Germinal de Zola sem, de facto, o termos feito.
para a Sara

Eu estava sentado numa toalha e tu estavas deitada na areia; assim, por esta ordem concreta, eu, depois tu, o meu corpo, depois o teu. E tu fumavas um cigarro que eu tinha acendido, os meus lábios estavam todos feridos, todos negros, tu dizias que era do frio mas aproveitavas e fumavas os meus cigarros, roubavas-mos, com uns gestos musicais. Não sei se era do frio, nem tampouco me importava com os teus lábios a roubar os meus cigarros, a levar os meus cigarros dos meus lábios, a levar os meus lábios para os teus.
- não te incomoda?
- o quê? as dores nos lábios?
- não, o facto de eu ser de 1991... não te incomoda?

E obviamente colocavas-me uma mão nas costas, e os teus dedos transformavam-se em heras que envolviam o meu torso, e depois encostavas-me os lábios ao pescoço e dizias:
- toma o teu cigarro, está nos meus lábios.
Mas eu sabia lá onde estava o meu cigarro, estava nos teus pulmões e nas tuas artérias, estava na tua coluna vertebral, na tua medula, no teu sistema nervoso, o meu cigarro carregado dos meus lábios e, afinal, incomoda-me, ou não, o facto de seres de 1991? Acho que nunca pensei muito nisso...
- acho que nunca pensei muito nisso...
E coloco a boca sobre os joelhos, ou, dirias, os joelhos sob a boca, e olho para areia, embora na verdade olhe para os teus pés de 1991, leves e jovens, ainda tão capazes, ainda tão lisos, sem calos nem cicatrizes. E tu andas mais descalça do que eu, e eu a roer os joelhos, a precisar de chorar, de chorar-
-te,
entendes? Não me incomoda, desde que brinques com as pernas, uma erguida, como uma alavanca, enquanto a outra, proporcionalmente, estendida, e depois invertidamente, num movimento cadente e incessante, tu, inteira, uma savana mecânica, feita de animais e folhas, troncos e roldanas, nervos, ah!, tantos nervos eléctricos, a libertar faíscas azuis quando me tocas, a boca só música, os lábios só fumo, o meu cigarro, os meus lábios onde? Nos teus pulmões, nos teus ossos, no teu sangue arterial e venoso, circunvalando pelas tuas veias e pelas tuas artérias, minha querida, não me importo...
- não me importo que sejas de 1991 porque preciso de te chorar, tens em ti o cigarro que me roubaste, deves-mo e eu devo-te os meus lábios, ainda que enegrecidos, temos aqui estes livros todos para ler e sei que provavelmente nunca os abriremos, o teu corpo importa-me mais, os teus olhos e os teus lábios.
- toma o cigarro que te roubei outra vez.
E choro-te durante muitos séculos, talvez um milénio, nessa altura, no fim, somos ambos tão velhos e tão vagos, meu amor, que já nada nos incomoda; somos só duas coisas que pensam ser uma, de braços abertos e com os sexos a jorrar uma luz
indescritível.
Posted at 06:16 pm by groze
fala  

 
12.7.09
xilofone
nos últimos dias de vida, a sua única ocupação era a de retirar remelas dos olhos, um fechado e outro aberto, os dedos dobrados sobre si mesmos a escarafunchar nos cantos, a boca num esgar de atenção sobre uma coisa para a qual não podia olhar. não lhe traziam presentes nem bolos de aniversário e todo o lixo lhe entrava para os olhos durante o dia. descobriram o seu corpo uns dias depois, por causa do cheiro.

não era como nos filmes.
Posted at 05:06 am by groze
marca (1)  

 
8.7.09
Reykjavíc
primeiro, fechamos os olhos e contamos de dez para baixo, dez, nove, oito, sete, se-
estou deitada na cama, estendida, sinto-me nua, e há uma mulher no canto do quarto, sentada no chão, nua, com os joelhos na boca e os braços a segurar as pernas, cada mão apoiada no cotovelo oposto, é uma imagem inversa de mim mesma, ali, quieta, os cabelos compridos a cobrir o rosto mas os olhos algures luzindo sob a contagem: oito, sete, se-
seis
de repente apercebo-me de que estamos a ver o gabinete do dr. caligari, obviamente!, projectado na parede sobre essa mulher sentada no chão, na aresta do quarto, e um homem também nu ao meu lado mexe-me na barriga e fala de solilóquios, pergunta-me coisas, metáforas, anáforas, anástrofes... que idiota!, que cansaço de boca, movendo-se, perguntando-me palavras... reticências, olho para sob a projecção do gabinete do dr. caligari, ou não fôssemos nós intelectuais, fechados num quarto a ver filmes intelectuais, surrealistas, marcantes, legados históricos, et caetera; ponto e vírgula: olho para a mulher sob as luzes, o cabelo e os olhos sob o cabelo, pleonasmo meu, certamente, esta coisa dos olhos, da contagem: seis, cinco, qua-
olho essa mulher enquanto o homem (o meu marido?) abre e fecha a boca mecânica, digo, mecanicamente (o que está errado comigo hoje? é a menstruação que se avizinha, os seios inchados, as dores de barriga, fodo e gosto menos mas finjo que gosto mais, depois, no fim, o meu marido foge para a casa de banho e lava a pila enquanto eu fumo um cigarro à janela, quando volta bate-me nas nádegas e beija-me o pescoço, cai cinza lá para fora, para cima da cabeça dos pássaros e para a roupa dos vizinhos de baixo, que se lixem todos!), olho para ela, nua, sob o gabinete do dr. caligari, intelectual, intermitente, o som antigo de um projector, olho para a mulher sentada, quieta, nua, parada, e sinto o seu cheiro daqui, sinto-o se fechar os olhos e me esquecer das palavras aprendidas deste homem nu que me mexe na barriga, com uma perna (a direita) pendente para fora da cama, eu estendida, deitada a amadurecer aqui, consigo ver a cona da outra mulher, sentada no chão, o meu disfemismo assusta-me, talvez este homem a tenha fodido, e a mim? o dr. caligari a apresentar cartões, mexem-me na barriga e conto nuvens para trás, começa-se do dez,
dez, nove
com licença, íamos no cinco, afinal!
cinco nuvens, quatro nuvens, três nuvens, duas nuvens, uma nuvem
tudo inflamado de sangue, nuvens coloridas, mexem-me na barriga, sinto o cheiro de cona, de sexo, sou um animal a saltar de nuvem em nuvem, os pássaros entram pela janela (nem me tinha apercebido de que o quarto tinha janelas, não tem, pois não?), o disfemismo da cona e a minha boca, a minha língua, a pila deste homem dentro e fora de mim e um suspiro, uma nuvem, o dr. caligari a sorrir-me cheiros na face, mesmo de frente, alguém desliga o volume e em câmara lenta a minha língua na cona, que antítese, credo!, não beijaria o dr. caligari nem este homem porque não cheiram ao mesmo que a mulher, e não sei que mal lhe fiz, para estar agora recolhida no canto do quarto, sem ninguém que lhe mexa na barriga enquanto fala de figuras de estilo.
ninguém calou o projector, fecho os olhos e conto para trás: quatro, três, do-
dois, um,
zero
e é o princípio de tudo.
Posted at 06:19 am by groze
marcas (3)  

 
7.7.09
o homem que se transformou num pássaro
Eram cinco da manhã e sempre e só apenas o nó da gravata no pescoço, por mais que o alargasse. E a camisa por fora das calças, e os sapatos caídos ao lado da cama, e o cinto a magoar, ainda apertado, os dedos a procurar a fivela, a encontrar, o polegar e o indicador esquerdos a segurar a fivela e o polegar direito a puxar aquele ferro que atravessa os buracos e de que, por falta de dicionário, não sabia o nome, a soltar-se do cinto, por fim, as calças largas, agora e a barriga a respirar em golfos, uma montanha, ora vejo os pés, ora não os vejo, no topo, o sitio onde sei ser o umbigo, embora, como não seja um umbigo saliente, não o veja, protuberante, um marco de pedra no cimo de um monte dançante. O tecto gravitava em torno do nariz e dos contornos escuros do rosto, ou talvez fosse do álcool e das drogas, os móveis tocavam-me nas pernas e nos braços, as gavetas arrumavam as meias e mordiam-me os dedos dos pés nesse processo, tudo estava tão latejante e doía tanto, deus! Às cinco da manhã revolto-me contra o Kafka e contra o Pessoa por terem escrito tudo aquilo que eu queria ter escrito, por não fazer mais, que imitá-los, que recriá-los nas minhas palavras, que significá-los incessantemente. E queria tornar-me num outro animal, amanhã de manhã encontrariam penas no lugar do meu corpo e eu estaria algures sobre o mar, com os olhos aquáticos, com o vento e os braços abertos cheios de ossos ocos e leves, cobertos de carne e penas e pele, entre. E ia a pensar naquele poema do Eugénio de Andrade, o Adeus, e a pensar "porra, é mesmo isto que faz sentido!", ou aqueloutro, do José Gomes Ferreira, aquele que começa "Devia morrer-se de outra maneira"... e na minha condição de ave não interessava mais nada disto, porque, não me preocupando com escrever, não teria nunca de carregar o fardo da inutilidade e da imitação, o meu único propósito seria voar, com os olhos e as asas, silenciosamente, em direcção a lugar nenhum, à espera do cansaço e do fulgor do sol sobre as costas, a empurrar-me para baixo, para o mar a gravitar o nariz e os contornos do rosto, assim escuros, nem sequer o nariz, só uma mancha, se me fixar nele fico estrábico (como é que os pássaros podem ficar o seu próprio nariz, com os olhos no lados da cabeça?), cair no oceano, enfim, e tornar-me numa outra coisa, as penas à superfície e o meu corpo lá debaixo, a desfazer-se, como naquela história do Carlo Collodi, o meu corpo de ave a desfazer-se e os olhos lentamente em direcção à superfície; debaixo do meu corpo de ave havia um outro, era um corpo de bardo, um corpo de Hölderlin, incapaz de respirar sob as ondas, nesse estado e, portanto, destinado a uma morte - dizem - dolorosa, cheia de esgares e contorções violentas. Debaixo de água tudo acontece a uma velocidade muito reduzida e, por isso mesmo, levo muitos séculos até morrer.
Em casa, são seis horas e o nó da gravata no pescoço, meu deus!, as minhas mãos podem sentir as revelações da insónia... se eu me transformasse numa ave, estaria, provavelmente, a imitar o texto de alguém.
Posted at 03:49 am by groze
fala  

 
8.6.09
eXanimatus?
saberia falar dos segredos mais bem escondidos, escolheria um caminho, de entre estes dois ou três, segurar-te-ia a cabeça entre as mãos e obrigava-te a descobrir os locais do inverno, essas paredes cheias de cornijas, que sobem em direcção à boca.
Posted at 08:18 pm by groze
fala  

entre os lábios
ser válido
com muitos sacos de plástico nas mãos
atravessar as ruas e olhar para os dois lados
escutar
tomar um café por dia

mas em casa atirar a cabeça contra as mãos e suspirar o lixo existencial todo cá para fora
o espírito de deus preenche toda a terra
as lágrimas sabem
a mijo.
Posted at 02:40 pm by groze
fala  

 
2.6.09
emoticon
a minha boca sabe que dentro do meu frigorífico tudo - quero dizer mesmo tudo - sabe em demasia a peixe estragado.
Posted at 04:00 am by groze
fala  

 
19.5.09
taxidermia
Começava-se por falar de paquidermes, de elefantes, portanto, negando ou pegando pouco no título do texto, caminhando muito à volta do facto simples que era

quero sair daqui. ir para outro lado qualquer, onde ninguém me conheça. onde existam elefantes, onde ser estranho, ser de um país estranho, faça com que as pessoas, ainda que inicialmente, se interessem e me queiram conhecer. porque, aqui, mesmo sendo estranho, isto é,

comendo grãos de café, bebendo um sumo espesso de frutos grossos.

e eu nem gosto de paquidermes, só se forem embalsamados, daí o título, convém sempre, depois, acabar por pegar nisto e falar do título, o título afinal de contas a interessar, a ter relevância no desenrolar, e tal, e coiso... uma catrefada de coisas, uma catrefada, que atroz palavra, que víscera de alma... que reticên-

cia.

mesmo fazendo estas coisas diferentes, mesmo vestindo isto, esta pele, estes braços, mesmo falando assim, pensando assim, não somos nunca estranhos o suficiente neste terreno. noutro sítio, onde existem elefantes.
Posted at 09:15 pm by groze
fala  

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