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exa 01 by Ed




exa 02


Set Fire to Flames - Fukt Perkusiv/Something About Bad Drugs, Schizophrenics and Grain Silos

(todas as imagens neste blog são da autoria de Edgar Libório, usadas com permissão)

   

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song of my typewriter:

the best way to think is not at all-
my banjo screams in the brush
like a trapped rabbit (do rabbits
scream? never mind: this is an
alcoholic dream);
machine guns, I say,
the altarboys,
the wet nurses,
the fat newsboys,
rubber-lipped delegates
of the precious life;
my banjo screams
sing
sing through the darkened dream,
green grow green,
take gut:
death, at last,
is no headache.

Charles Bukowski, The Days Run Away Like Wild Horses Over The Hills, Ecco/HarperCollins, 1969



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4.1.12
em cima na' é vinho?
desenhei um cão no teu caderno. não serviu de nada. foi como os beijos que nos fomos oferecendo, como os abraços trocados por entre o frio de sermos humanos hoje. e dei-te discos, livros. para nada. construí nada. dói manter os olhos abertos. ocorrem-me clichés, ocorre-me repetir-me. acho que te amo. acho que te amo. amo-te, uma vez que ninguém sabe realmente o que seja isso, não é? portanto, amo-te e quero dar-te refúgio no meu corpo, nos meus braços, na infertilidade das minhas pernas. já não me queres mais. e pode ser que o meu coração deixe de funcionar entretanto, que saiam só moscas da minha boca, para ti é o mesmo, importa tanto como dizer que te quero, que te amo. não sei porque é que os homens são mais piegas que as mulheres. já andamos nisto há tantos séculos. estamos a compensar alguma coisa. mas dizemos que é biológico, porque temos a ciência para isso, e assim explicamos o inexplicável, com o propósito de sobreviver uns aos outros.
Posted at 07:50 pm by Cássio Almirante
fala  

 
18.8.11
gás propano
ontem à tarde fugi com um caixeiro-viajante e a única coisa que prometemos um ao outro foi vinho tinto de pacote, que não fodíamos quando eu estivesse menstruada. deu para recolher todas as correntes de ar, prevenir as constipações, verificar os manómetros, despejar os sacos de batatas (uma a uma, como pepitas de ouro, como pedaços de platina, para próteses que apitam nos detectores de metal dos aeroportos
"foi-se-me um bocado do cocuruto, senhor, com uma granada, em Angola, já viu? os pretos deixaram-me ali para morrer."
fim de interlúdio)
desligar a caldeira, o disjuntor principal, levar aquela coisa cerâmica dos fusíveis na mala de mão. noutro tempo, logo, noutro espaço, fugi com um caixeiro-viajante, sei lá que porra é um caixeiro-viajante, essas coisas já não são da minha altura, são memórias, palavras que os meus avós diziam e acho que nem eles próprios percebiam o que estavam a querer dizer, "merendeira", "petroleiro", "balança", "ameixoeira". à pressa, muito à continha, ainda dá para enfiar um dicionário, dois ou três livros estrangeiros e uma muda de cuecas na mala, depois trancam-se os gatos na rua, "algum vizinho caridoso há-de dar por eles e alimentá-los, isto é um animal esperto, à fome não hão-de morrer, se for preciso caçam pássaros, roedores, répteis pequenos, besouros, baratas, sei lá, eles vivem, eles aguentam-se, não precisam de mim para nada."
duas ou três nuvens violeta depois, este homem debaixo de uma arcada degradada do sal e do vento, numa cidade quase deserta junto ao mar, habitada maioritariamente pelo cheiro e pela memória de pescadores mortos nos quartos, à janela, com xaropes da tosse e colheres aquecidas no parapeito, é só um projecto de caixeiro-viajante, a dar-me uns trocos para o autocarro ("foi bom enquanto durou, agora cada um vai à sua vida, é assim, há muito peixe no mar, tenho medo de apanhar doenças."), a enfiar-me uns trocos para o autocarro nos bolsos ("não te faças de esquisita, isto não é para te pagar de nada, porra, precisas deste dinheiro mais do que eu!"), levo a mão à testa e volto a lembrar-me daquela ferida de anteontem, ainda está a sangrar, claro, não a lavei nem sequer lhe pus um penso ou uma gaze, valha-me deus, sou tão desatenta!, esqueço-me de que as coisas me doem, que a morte me dói, entretanto penso em desinfectante e em caixeiros-viajantes, desconheço o que seja isso, às tantas precisa mais do dinheiro, do que eu, para pagar o quarto na pensão, um prato de sopa, companhia para estas noites frias (putas, nas noites frias às vezes é preciso uma puta ou outra, nem que seja para ficarem em vigília a fumar cigarros, nuas, num banco, a olhar o chão, o penico alto, de esmalte)...
custa-me a memória disto, a impossibilidade de ver um caranguejo na parede metálica de um sino semi-enterrado a transformar-se numa ferrugem sanguínea, orgânica, vítrea, que fale desses locais como se falasse de sentimentos.
se subir um pouco a saia, se abrir um pouco a blusa, ah!, com que facilidade apanho boleia para outro lado, de cabelo solto e a segurar os sapatos de saltos partidos, descalça queimando os pés neste alcatrão.
Posted at 04:53 am by Cássio Almirante
fala  

 
4.4.11
poejo
tenho isto nas mãos, dói-me como se não soubesse o que é. não sei o que é. doem-me as mãos, há dias em que me doem as mãos como se tivesse matado um coelho, assim, como via matar coelhos quando era pequeno, com um soco na nuca e, depois, o coelho estava morto, deitava morte pelos olhos, às vezes deitava sangue pela boca e pelas orelhas. é como se as minhas mãos olhassem para mim e fossem olhos mortos, os olhos mortos são a coisa que me faz mais impressão, os olhos mortos das pessoas nos caixões, quando estão abertos, e não parece que estão a dormir, ali, abertos, como aquele corpo que encontrei enforcado numa árvore, perto da igreja, preso com as mãos, e os olhos estavam abertos, mortos, não piscavam, pareciam não ter côr nenhuma. a quem já viu olhos mortos abertos isto talvez soe a mentira; é porque é, eu nunca vi olhos mortos, mas dói-me este tempo e vejo olhos mortos, as minhas mãos têm isto, estes olhos, esta inutilidade, esta arte vazia de olhos mortos, esta casa vazia, com móveis a desfazer-se, com bichos prateados a sair de debaixo do que resta dos livros e das listas telefónicas.

a minha mulher nunca percebe nada destas coisas, senta-se ali a ver televisão e deixa que o mundo se apague todo, nem nota a música dos velhos que saem à noite, só fala de como são bonitos e de como estão bem conservados, da roupa que vestem, de como conseguem ainda estar magros e elegantes, sem notar no que devia, e isso é das coisas que me cansam mais, porque eu canso-me sempre, tenho esse dom, o do cansaço, o da desistência antecipada, o de mandar pessoas embora só porque estou cansado delas antes de tempo, para ficar sozinho, cansado de estar sozinho, a olhar para isto, que tenho nas mãos, e que me dói, também porque não sei o que é, é uma engrenagem, ou isso, e os velhos, não os velhos mas a música dos velhos, armazéns de música e de beleza, os pés contra a calçada, as mãos sujas de coelhos mortos, a dor de terem, eles, sim, visto como são, realmente, os olhos dos mortos.
Posted at 11:33 pm by Cássio Almirante
fala  

 
30.3.11
em casa estranha
beber um chá (maçã-canela, como nos bons velhos tempos), ainda que "que porra é essa, dos bons velhos tempos?", esperar por ele dentro de um tacho de alumínio, tão quente, meu deus!, o tacho, que lhe pegaste uma vez com a mão e tivémos de ir a correr para o hospital numa noite, esperámos uma noite inteira nas urgências mas, no dia seguinte, quando chegámos a casa, tínhamos chá frio para o pequeno-almoço. parece, agora, que isso era a única coisa que nos importava. também montávamos móveis, seguíamos as instruções, fodíamos sem instruções, víamos televisão, tínhamos medo porque, na rua, havia motins, revoluções, a polícia não nos assegurava nada, era tudo incerto. mas sobretudo bebíamos chá, era melhor que foder ou que montar móveis, pronto, móveis, desses que se compram em partes nos supermercados, montávamo-los com agilidade, era a nossa ficção, era assim que escrevíamos livros, pequenos contos, eu passo para ali, tu passas para aqui, passa-me essa peça, vê lá se não sobram parafusos, vê lá se não faltam pregos, será que isto encaixa aqui?, se calhar devíamos ter começado a montar isto ao alto; depois bebíamos chá, no fim, sem ninguém nos chatear, ouvíamos umas bandas de rock australianas de que nem nos lembramos agora do nome, claro, porque isso era nos bons velhos tempos, agora estamos aqui presos noutra época, temos barba, bigode, pêlos variados, o mundo está menos perigoso mas a polícia continua a mesma merda, só apanham o peixe miúdo, é tudo uma miséria, as pessoas são gordas porque querem, matam-se porque querem, se fizessem terapia era um mundo melhor, sem egoísmos, sem perdas de tempo, todos sabiam falar
passe-me o sal, Eduardo, por favor, está à sua direita, esquerda do observador, no caso, eu.
passe-me o sal, Eduardo, se fizer o obséquio, nós nem pensar sabemos, não temos a estrutura lógica, mandam-nos ir estudar filosofia mas a filosofia aborrece-nos, é sempre a mesma coisa, o pensamento abstracto afinal não é nada abstracto, para nós, pensamento abstracto é saber criar tudo na nossa cabeça, é ler isto e aquilo e acrescentar o nosso mundo imaginário a isso, porque no fim do dia quando voltamos para casa e a polícia viola um sem-abrigo num beco temos de concluir que nunca pode ser só isto, em memória dos bons velhos tempos, em memória dos móveis do hipermercado que ainda continuam montados na sala e no quarto, foda-se, não pode ser só isto, senão enlouquecemos e depois temos de fazer terapia mas, porra, não há terapia que nos salve de existir.
Posted at 04:39 am by Cássio Almirante
fala  

 
29.1.11
se possível, queria não pôr um título nisto
não sei que profundidade tem o poço ao fundo da rua principal, se quiseres que te responda, é só isso que te posso dizer. costumava ouvir os miúdos que saíam da escola primária e de como falavam das suas relações amorosas e invejava-os, sabes?, invejava-os porque aquilo era como nós devíamos ser... devíamos aprender mais com isso, foda-se, não é? que cliché, porra, que cliché. mas este texto está cheio de clichés, por isso, não faz mal. as crianças enterravam também animais, faziam-lhes serviços fúnebres emocionados, e tudo, num quintal qualquer, ou num ermo junto do rio ou da praça, se calhar não devíamos ter posto os animais que nos iam morrendo no lixo, já pensaste nisso? os hamsters, os gatos, os cães, os periquitos e os peixes e as tartarugas que nunca chegavam a viver mais de uma semana. mas os miúdos amavam os animais com a força própria de miúdos, era o evento mais importante das suas vidas, para nós isso não era um problema (continua a não ser), para nós era chegar à loja e pagar por outro canário ou por outro gato que caçasse os ratos na despensa por baixo das escadas. devíamos aprender o amor, não é lá porque crescemos e porque "isso são coisas de crianças" (clichéclichécliché, olha, que se foda), acreditar que é para sempre mesmo que até agora nunca nada tenha sido para sempre, acreditar em mudar a água das plantas e correr mesmo que se firam os pés nas pedras da rua ou na areia cheia de bichos mortos por baixo. acreditar na tua voz para que acredites na minha voz, desligar o aspirador e abraçarmo-nos mais no fim de fodermos, pelo menos uma vez não irmos à janela fumar um cigarro e depois ir à sala buscar um livro e fumar um cigarro ou ir à cozinha buscar um pão com doce de laranja e fumar um cigarro ou ir ligar a aparelhagem e fumar um cigarro. ou fumar um cigarro como os miúdos, às escondidas, a formar um ritual ali, a tossir porque os brônquios, claro, os brônquios ainda não prontos porque, enfim, mas ter o tabaco como um incenso (ou ver o incenso como um incenso, também, para se perceber isto do incenso e do tabaco como incenso), uma dádiva que sai pelo nariz e pela boca quase pelos olhos, notas?, escondidos atrás de um tanque e parece que há tanto tempo atrás (se escrevo mais clichés podes matar-me - mata-me, vá) mas se espreitarmos pela janela enquanto fumamos/fugimos, depois de fodermos, sempre a mesma merda, sempre a mesma coisa, o raio dos putos, uns vândalos, uns vadios, uns imbecis sem futuro, sem responsabilidades, a fumar às escondidas, devíamos era dizer aos pais, levá-los por uma orelha até aos pais e dizer-lhes "estava a fumar atrás do tanque como se eu há uns anos atrás, tenha tento nele!"
e as responsabilidades, trouxeram-nos o quê? e a maturidade e esta merda toda? acordar cedo, porque o patrão isto, fumar depois de foder, porque o meu corpo aquilo, contar o dinheiro na mesa do escritório, porque as contas aqueloutro. mas os animais, esses, quando morrem metemo-los no lixo porque são dispensáveis, deixamos de ler poesia, só umas merdas que às vezes o jornal nos recomenda. e lemos os jornais, porque chega-se a uma porcaria de uma idade em que nos olham de lado se não lemos os jornais e não sabemos o que se passa no chile ou na índia ou em são petersburgo ou na cidade do cabo. se te disser que não me apetece ler jornais? se te disser que queria que ficássemos abraçados mais tempo no fim de fodermos? se te disser que devíamos enterrar estas três tartarugas num aquário em forma de rim com uma palmeira torta em miniatura sobre uma elevação no centro com escadinhas, se elas não passarem desta semana?
mas a única coisa que te interessa é o estúpido do poço na rua principal, e qual a sua profundidade o seu diâmetro a sua largura o seu comprimento a sua área o seu volume sempre tudo (demasiado, deixa-me que te diga) em três dimensões. faz-nos falta viver a quatro ou cinco dimensões, contando com o tempo e com as sensações. se atirássemos os animais que nos morrem para dentro do poço, com um serviço fúnebre comovido, sempre era melhor.
Posted at 04:05 am by Cássio Almirante
fala  

 
5.11.10
a minha cabeça podia ser um pastel de nata
Quando, aqui há uns anos, me perguntaram se era capaz de matar um homem, respondi que sim, mas, na verdade, se me perguntassem isso hoje, acho que responderia o contrário. E, para afirmar isto, parto do princípio gramatical de que "sim" é o contrário de "não", declaração que, em si mesma, até pode nem fazer grande sentido. A verdade é que já matei homens pelo caminho, mas isso não tem grande relevância no que pretendo dizer. A alguns retirei os olhos, tendo-os, depois, guardado numa caixinha de madeira vermelha sob a cama, em cima de um tapete velho. Julgo, com base num conhecimento livresco, e não empírico, que já não existam, só a caixa, talvez apenas com um muco estranho a empapá-la, ou uma secura extrema de cheiro a corpos mortos, quando a abrirem. Mas isto, como quase tudo, não vem ao caso, vem apenas ao texto, num fluxo absurdo através do qual o autor, que temo realmente ser eu, nos leva. Note-se que, ao dizer "o autor nos leva", o autor (eu?) diz levar-se a si mesmo, o que é nitidamente constatável ao notar-se o emprego do pronome pessoal da primeira pessoa do plural. Sei que era incapaz de matar um homem, resumindo, que é o que importa, e não interessando os homens que matei entretanto, que isso, diga-se, nem sequer fui eu, foi outra pessoa, que não eu, ou, se se preferir, um eu que já não existe, que ficou perdido numa estase qualquer, numa onda de tempo que fica congelada, como se numa fotografia, a perpetuar um gesto (de assassinato, porque não?), ao longo da eternidade. Ou seja, é errado dizer que esse eu já não existe, pensando na concretude (perdoem-me o neologismo, pelo menos no que ao português europeu diz respeito) do termo "eternidade"... o que se passa é que esse eu já não tem um suporte físico, esse encontra-se a suportar o eu actual e contemporâneo, mas tal facto não tira qualquer mérito ou propriedade à variedade e realidade fáctica dos infinitos eus que ficaram eternizados ao longo do tempo, refractados de mim, deixados ao e por acaso numa linha mais ou menos fixa de temporalidade. Este eu, com todo o peso, certamente, de todos os outros eus anteriores e, perdoem-me essa liberdade, antigos, não era capaz de matar um homem. Aliás: não é capaz de matar um homem. Porque sabe que um homem é uma máquina poética que morre sozinha.
Posted at 04:10 am by Cássio Almirante
fala  

 
23.10.10
pântano #1
o meu marido segurava-me as pernas e o meu pai fumava-me para a cara, dizia-me "é o tabaco que nos vai fazendo santos." a minha mãe comia papo-secos (papossecos? papos-secos?) na cozinha, já não via nada há uns três ou quatro anos, só, de quando em quando, os vultos dos miúdos que passavam na rua e lhe chamavam bruxa, lá de fora. dava comida aos gatos, aos cães, aos periquitos, e lembro-me que olhava o aquário vazio com saudade dos peixes de água fria que o meu marido lhe tinha comprado uns anos antes da cegueira ou, pelo menos, aquilo que se nos afigurava como sendo cegueira. às vezes o meu pai despia-se à minha frente e metia-me dois dedos na cona, depois obrigava-me a chupar-lhe a piça, enquanto dizia ao meu marido "vês, idiota?, é assim que tens de fazer." e fodia-me. o meu marido segurava-me sempre estas pernas, como se fossem troncos de árvore, a minha mãe perguntava, lá na cozinha, o que é que se passava, e o meu pai respondia, abotoando as calças, que era para me tirarem os demónios. desde que se justificassem as coisas dessa forma, a minha mãe só fechava os olhos e sorria, comendo laranjas ou bebendo chá, desses chás de velha, tília ou camomila ou cidreira, cheiram-me todos ao mesmo.
Posted at 04:54 am by Cássio Almirante
fala  

 
26.7.10
a tua mãe é um homem e o teu pai é uma lady
perguntaram-me porque tinha a espingarda na boca. não sei o que respondi, é provável que não tenha respondido nada; vistas bem as coisas, nunca soube articular as frases necessárias. aliás, acho que nem tenho língua. mas lembro-me de sentir o cano da espingarda junto à garganta, e de como cheirava o metal junto da garganta; um alimento estranho, como quando era criança e passava horas com alfinetes-de-ama na boca, saboreando o ferro. lembro-me que já estava assim há muito tempo, meses, creio, desde que me tinham cortado a água e luz. e isso foi depois de se ter ido embora, com as malas e a roupa, nem olhou para trás, "vou à procura de outra coisa melhor, noutro lado, estou cansado das tuas coxas e do sabor a tabaco da tua boca", lembro-me que foi isto que me disse antes de se ir embora. e depois cortei a língua nessa noite, portanto, não tenho sequer língua, constato-o. durante muito tempo ninguém quis saber de mim, também é verdade. mas agora rodeiam-me com medo de se acercar, perguntaram-me porque tinha a espingarda na boca, porque estou a chorar. ninguém quis saber dele ou dos animais que tinham morrido desde que os tinha deixado de alimentar há umas semanas. "não faças isso", mas era tarde, afinal, lembro-me que não tinha língua e os meus dedos estavam cheios de sangue, toda a gente parava lentamente e só o mundo avançava à força de engrenagens antigas.

tenho tanto medo porque estou aqui sozinha e não ligam o ar condicionado porque dizem que faz demasiado barulho e assusta os clientes.
Posted at 01:26 am by Cássio Almirante
fala  

 
17.5.10
sabbaoth

um homem é uma besta, uma máquina absurda que grita muito alto sobre coisas ininteligíveis, parado numa estação à espera de um autocarro (cf. textos anteriores, "o autocarro nunca chega", etc), com dinheiro no bolso - "vou para lugar nenhum, vou ser noutro sítio, vou compôr-me, ser uma opereta num palco mal iluminado, percebem? deixem-me ir para onde o ar seja mais rarefeito e respirar seja uma tarefa mais complicada, mais complexa, para que dê mais valor a isso, uma ilha longínqua, se puder ser, uma ilha onde os barcos nunca atraquem e onde os animais sejam todos imaculados, onde as urtigas se nos entrelacem nas pernas e não doa, nada dói, os animais têm os olhos incendiados de amores ao lado, de existências sempre ao lado, e nas igrejas há naturezas mortas com gelo e limão, os pintores, etc."

- cale-se.

Posted at 03:09 pm by Cássio Almirante
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17.4.10
uma coisa em torno da rejeição
podes deixar-me em casa, se possível. e se quiseres mesmo muito, podemos foder no banco de trás. com empenho e carinho. mas não te vou dizer que te amo.

o meu coração é um vidro fosco partido.
Posted at 07:20 pm by Cássio Almirante
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